De vez em quando, com um pouco de sorte, bebe-se litros de chope e na hora de pagar a conta, o rabudo ganha R$ 50 num sorteio de promoção. Em outras, se encontra uma nota graúda no chão de um bar esperando a gentileza de ser juntada e bem gasta antes da primeira pisada. Em ocasiões mais raras, se encontra uma obra de arte perdida entre uma montoeira de CDs relegados à segunda divisão. Se a Felícia não acertou as dezenas da mega sena nem na lotomania nesse fim de semana, pelo menos ela tirou do ostracismo um disco ao vivo da Orquestra Paulistana de Viola Caipira. Com todas as cifras no encarte. E facilmente tocável num violão afinado
Entre guarânias, toadas, cururus e cateretês, lembrei de como descolei essa preciosidade. Relegada, desde então, à sobra de discos enviados pela Kuarup Discos à redação do suplemento de cultura do jornal A Notícia. Enquanto os Sonic Youth, Pearl Jam e outras quintessências roqueiras eram disputadas no grito, sobraram na roda dos enjeitados compartilhadas com a redação, entre o Dicró no piscinão de Ramos e uma coletânea do Leoni, essa gravação ao vivo
Quase cinco anos atrás, quando tirei o disquinho do terceiro mundo do jabá ouvi uma coisa ou outra, achei bonito e tudo, mas não foi pra mala que me acompanhou no exílio. Abria com o hino nacional e como eu não andava dos mais ufanistas naquela época, a Orquestra voltava a seu karma de poeira e péssima companhia no porta CDs. De repente, batemos de cara com um trenzinho caipira aqui, a música-tema do Som Brasil que emocionava os ébrios da casa e mais um monte de coisas doídas de tão bonitas.
Ando devagar porque já tive pressa
Levo esse sorriso porque chorei demais
(...) Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Compreender a marcha e ir tocando em frente
É que a viola fala alto no meu peito humano
E toda moda é um remédio pro meu desengano
Pronto.
Isso é muito mais triste que Radiohead! Se o Thom Yorke soubesse português, se enforcava.
Pois se uma viola é bonita, o que dirá um montão delas?
Para Rolando Boldrin
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